Caros leitores,

Como abordamos em artigos anteriores, as Lesões por Pressão (LP) tem sido amplamente estudadas e os resultados desses estudos tem contribuído para que o julgamento clínico e a tomadas de decisão sejam embasadas em evidências científicas, conferindo maior segurança e melhores resultados.

Uma estratégia trabalhada na prática clínica para gerenciar o evento da LP, tem sido identificar o paciente que tem risco para desenvolver a LP e uma vez reconhecido o risco, lançar mãos de medidas de prevenção. A inspeção e avaliação da pele no paciente com risco é considerada “padrão ouro” das ações de prevenção, e deve ser feita de forma minuciosa e frequente, a fim de detectar alterações superficiais na pele precocemente. Uma vez diagnosticada a LP, as medidas para um desfecho positivo “reparação tecidual” devem ser implementadas prontamente. No entanto, com a melhor compreensão da fisiopatologia da LP, foi esclarecido que a combinação dos ciclos de pressão, tempo de exposição, isquemia e reperfusão tecidual,  é que resultam na LP e variam amplamente entre os pacientes. Outros esclarecimentos também foram fundamentais, como os danos teciduais. Esses podem ocorrer a partir de um evento isquêmico curto, inferior a duas horas e ainda, que as etapas iniciais do dano tecidual não são detectáveis a olho nu. No momento em que o diagnóstico da LP é feito e quando o dano é visível, o prejuízo do tecido subjacente é mais profundo e frequentemente grave, isso porque o músculo tolera menos a pressão e a isquemia quando comparado à tolerância da pele.1

Com esses esclarecimentos, o julgamento clínico ampliou-se, e atualmente é exigido que o profissional ao diagnosticar a LP, considere que a lesão não restringe-se somente a área visualmente acometida, mas que tecidos mais profundos podem estar em sofrimento isquêmico, consumidos por quadro inflamatório persistente, com liberação de agentes pró-inflamatórios (citocinas) e células apoptóticas mais ativas, dias antes da lesão tornar-se visível.

Se os estudos nos mostram esse cenário, como prover o diagnóstico da LP de forma precoce, ou seja, avaliar áreas de maior ocorrência (trocânteres, sacra, calcâneos, etc.) e identificar esse comprometimento dos tecidos mais profundos, antes da manifestação cutânea?

No sentido de suprir essa necessidade da prática clínica de prover um “diagnóstico precoce da LP”, alguns recursos tecnológicos estão sendo empregados como: ultrassom, termografia fotográfica e bioimpedância, e respectivas evidências científicas estão sendo construídas.  Esses recursos tecnológicos se baseiam na resposta inflamatória. Estabelecendo como princípio que o dano tecidual desencadeia resposta inflamatória, e que essa envolve resposta celular e produzem sinais e sintomas: calor, rubor, dor, edema e perda da função. Esses recursos propõem de formas distintas e não invasivas, a detectar a inflamação dos tecidos através dos sinais inflamatórios.2

Diante dos estudos apresentados, esses recursos parecem ser promissores no diagnóstico precoce da LP, porém a evidência científica ainda segue em construção.

Prevenir e tratar a LP precocemente é um desafio relevante na prática clínica. As instituições e demais serviços de saúde, anseiam por recursos que possam  conter os eventos, melhorar a qualidade de vida do paciente, reduzir o impacto sócio-econômico e a judicialização. Dessa forma, encerramos os artigos de LP e na próxima oportunidade iniciaremos com o assunto Lesões por Umidade, até breve!!Caseoso, produzido a partir da 20º. Semana de gestação, e composto por um sebo esbranquiçado, sintetizado  pelas glândulas sebáceas, desempenha papel protetor para hidratação, regulação de temperatura e ação antimicrobiana.3

O segundo mecanismo de função barreira é a PTEA, que nas diferentes etapas da vida que compõe o Ciclo Vital sofre aumento. Quanto maior a PTEA, mais desidratada a pele se tornará. A falha desse valioso mecanismo de hidratação cutânea pode causar “XEROSE”, com seus sinais e sintomas clássicos: ressecamento, descamação, fissuras, vermelhidão e ocasionalmente sangramento.2 Aplicação frequente de hidratantes tópicos, sejam os oclusivos, umectantes, emolientes ou reparadores proteicos, com formulações específicas e que atendam os diferentes tipos de pele no Ciclo Vital, reduzem a  PTEA e contribui no restabelecimento do MH e na integridade da pele, tornando-a mais resistente as agressões externas

O pH cutâneo compõe o terceiro mecanismo de função de barreira. O pH da pele é ácido e dependendo da região corporal  varia entre 4,2 e 5,9, essa característica decorre da  presença do ácido lático, suor, e em menor quantidade, ácido glutâmico e aspártico.1,2,5 A manutenção do pH garante  o sucesso do mecanismo de hidratação e imunidade cutânea, e sua alcalinização reduz  a produção dos lipídeos, provoca aumento da permeabilidade da pele e favorece a proliferação de microorganismos.4 O adulto tem boa facilidade para manter os níveis ideais de pH, em contra partida, na senilidade, especialmente acima dos 80 anos o pH torna-se tão alcalino que aumenta o risco de infecção tegumentar, no RNT o pH é alcalino e estabiliza-se por volta do 2º. Dia de vida, enquanto que o RNP somente após o 8º. dia de vida ou mais.2 A frequência e os produtos empregados para a higienização da pele, pode provocar alterações do pH, portanto, é fundamental escolher recursos que se proponham a manter o pH cutâneo. O emprego de sabonetes em barra é uma das causas mais frequentes de irritação e desidratação da pele, pois são alcalinos. Recomenda-se o uso de sabonetes líquidos e com pH compatível com a pele, sem perfumes ou de fragrância suave.

Inúmeras ações são necessárias para preservação desse complexo manto protetor, mas conhecer os mecanismos de função de barreira cutânea no Ciclo Vital, os cuidados e os critérios a serem adotados para manter a integridade da pele, é um passo fundamental para o exercício da prática clínica segura.

Em nosso próximo encontro, abordaremos as Lesões por Fricção e a prática baseada em evidência para gerenciá-la.

Será um prazer estar contigo! Até a próxima!

Rosangela A. Oliveira

 

Referência Bibliográfica:

  1. Bhattacharya S, Mishra RK. Pressure ulcers: Current understanding and newer modalities of treatment. Indian Journal of Plastic Surgery : Official Publication of the Association of Plastic Surgeons of India. 2015;48(1):4-16. doi:10.4103/0970-0358.155260.
  2. Oliveira AL, Moore Z, O Connor T, Patton D. Accuracy of ultrasound, thermography and subepidermal moisture in predicting pressure ulcers: a systematic review. J Wound Care. 2017; 26(5):199-215. doi: 10.12968/jowc.2017.26.5.199.
  3. Deprez, J.-F., Brusseau, E., Fromageau, J., Cloutier, G. and Basset, O. On the potential of ultrasound elastography for pressure ulcer early detection. Phys. 2017;38: 1943–1950. doi:10.1118/1.3560421
  4. Nakagami G, Sanada H, Iizaka S, Kadono T, Higashino T, Koyanagi H, Haga N.  Predicting delayed pressure ulcer healing using thermography: a prospective cohort study. J Wound Care. 2010 Nov;19(11):465-6, 468, 470 passim.
  5. Moore Z, Patton D, Rhodes SL, O’Connor T. Subepidermal moisture (SEM) and bioimpedance: a literature review of a novel method for early detection of pressure-induced tissue damage (pressure ulcers). Int Wound J. 2017; Apr;14(2):331-337. doi: 10.1111/iwj.12604. Epub 2016 Apr 29.